sexta-feira, 11 de maio de 2012

Fátimas


A felicidade também mora naquela casa de um quarto, piso capenga e frestas nas paredes. Faz tanto, tanto frio a noite que Fátima e o marido abraçam os filhos para escondê-los do vento boêmio que passeia assoviando pela madrugada. Logo pela manhã, o desafio de sobreviver a mais um dia tem como revanche um olhar de esperança.
No café desta manhã não haverá café. Então Fátima disfarça a angústia e canta uma música, inventa uma história, faz cócegas. Tudo para enganar a fome dos filhos. Gestos no compasso em que, protetora como toda mãe, veste as crianças com a cautela de quem mede cada minuto, pois não pode perder a hora. O marido, na beira do fogão a lenha, assiste tudo com ternura.
Até que os dois pares de pernas curtinhas seguem rumo a escola. Os tênis quase sem solado, o uniforme acima das canelas também já não alcançam os punhos; mas isso só até o mês que vem. E assim Fátima vence a primeira etapa do dia. Ela sabe que ninguém vive de brisa, mas comprova, diariamente, que zelo de mãe alimenta qualquer fome.
Na casa onde ela trabalha como faxineira é tudo tão diferente.  A mobília, a mesa farta, os agasalhos grossos, os brinquedos espalhados pelo chão, também os sorrisos. Ainda assim, às vezes sente mais frio na casa dos patrões do que na sua meia-água de madeira irregular. Sabe a causa: falta ternura ali, um pouco mais de afago; embora desconheça a grafia desta palavra.
Do outro lado da cidade está ele – que quando senta no banco que lhe cabe no ônibus, pensa em querer que tudo seja diferente (só por hoje). Então deixa as sobrancelhas murcharem, puxadas para baixo pelo desânimo. Em seguida vêm os mesmos rostos matinais, enquanto o resto do mundo ainda parece dormir. As mesmas pessoas sobem os três degraus e entregam o dinheiro da passagem sem mirar o seu rosto no outro lado da catraca.
No final do dia, Fátima traz na bolsa desbotada alguns trocados, seis pãezinhos e uma caixa de leite. Sente um peso que não é das poucas compras, mas da saudade dos seus pequenos. Abre a porta, a tv de quatorze polegadas distrai a ausência da mãe – que abraça os filhos com viço e culpa por não ter chegado em casa antes. É tão forte que sinto sufocar.
Há poucos metros dali, ele mira o encontro dos pés com a poeira e se enche de alívio por avistar a casa que construiu com a ajuda da esposa. É modesta, sabe. Quase miserável. Mas é uma das poucas coisas que possui, além da família – e é por ela que os vestígios do dia-nada-fácil viram fumaça. A porta da casa está aberta. Antes de entrar, ele para diante dela e vê a esposa acendendo uma vela para Nossa Senhora. Como ela continua bonita, pensa.
A fé que Fátima alimenta diariamente lhe diz que as coisas um dia vão melhorar e que todo esforço será recompensado. Horas depois, todos dormem. Menos o zelo de Fátima, de mãe, este é o único que não adormece naquela casa; que é feliz porque tem uma Fátima, que faz do zelo o lar da sua família.
Lá fora, o vento corteja a garoa fina de inverno, sem sucesso.

quinta-feira, 5 de abril de 2012


Reparo as pessoas andando pelas calçadas desbotadas, atravessando o cinza das ruas. Esse desfile cotidiano de passos apressados sempre vem acompanhado pelo gesto inconsciente de balançar os braços num movimento cômico, sem compasso. E de que adianta tanta pose, tanto toque-toque de salto alto, se todas essas pessoas, como que numa coreografia ensaiada, apresentam a mesma dança de braços ridícula, que as torna todas iguais? Elisa aperta as mãos na cintura, na tentativa de evitar esse balanço. Funciona nos cinco primeiros segundos, depois a reluta vira incômodo. Tudo inútil, a tentativa de fazer diferente dissipa quando os braços caem livres rumo a dança das mãos. Como o cobrador de ônibus de uma cidade pequena, que quando pensa em querer que tudo seja diferente (só por hoje) sente as sobrancelhas murcharem, puxadas para baixo pelo desânimo ao ver os mesmos rostos matinais enquanto o resto do mundo ainda dorme. As mesmas pessoas sobem os três degraus e entregam o dinheiro da passagem sem mirar o homem no outro lado da catraca. Foi a mesma cena ontem, na semana que passou e vai ser assim amanhã. Eis a vida mostrando sem fazer esforço que tudo vai permanecer igual. É tanta ausência de sorrisos, meu Deus! Um gesto singelo desarma qualquer vestígio de uma noite mal dormida. Pena que serenidade não seja comum e involuntário como o balançar dos braços.

segunda-feira, 12 de março de 2012



Desencontro. Penso nessa palavra, no ciclo que a repete imemoráveis vezes e vacilo diante dela. Não é perder, nem esquecer, é desencontrar; saber onde a coisa paira e ainda assim deixá-la na lista de itens esquecidos. É uma ausência proposital, habilidade inata que amadurece quando a infância habita somente as fotografias sem cor. Como quem usa um sapato apertado de propósito, porque quer sentir dor. Porque a mesma perseverança (ou teimosia) que faz alguém mudar de cidade e emprego ou repetir o jogo da mega sena toda semana, abriga a mãe que dorme com os dois filhos no canto de uma rodoviária numa noite fria, envolvida por balaios e cobertores velhos. É a vida soltando um grito abafado para lembrar que em algum lugar distante, mais alguém está vivo.

Toda vez que vejo alguma mulher com o mesmo corte de cabelo de minha mãe, sinto o peito apertar enquanto simultaneamente a garganta engasga e os olhos ensaiam um par de lágrimas; prelúdio da perda. Então me pergunto como vai ser quando ela partir e me visitar em momentos assim, trazida por rostos desconhecidos. Não sei lidar com a morte, jamais aprenderei. Mas no lado avesso aprendi a desencontrá-la. Afinal, é no desencontro da lembrança que se esquece um sorriso, um gesto, uma frase dita. E usamos dessa arte milenar para desfocar a morte, a vida, as perseveranças alheias, o dia de ontem.

Não há o fim do mundo, há mundos que se acabam. Como a-infância, a-melhor-amiga-dos-16-anos, o-primeiro-emprego, o-amor-pra-toda-vida, o-dia-de-ontem, esse-segundo. Mas há sempre alguém que vai trazer embrulhado num papel de presente um porta-retrato do pai morto há 15 anos e dizer: “pode chorar, é teu direito”. Mas eu não tenho porque chorar, meu Deus! Eu aprendi a desencontrar a dor da perda.



quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Doutor, divago


Suspiro
Ele queria ter alcançado o ponto de chegada antes de avistar o último vagão sumir naquela curva. Em vez disso, afagou suas costas de longe, deixando a impressão firme e torpe de quem mente sem gaguejar ou transmitir incerteza. Mas ele não mente assim, tampouco desdiz verdades em cartas. Ainda assim, sem mirar seus olhos, falhou.  

Escárnio
“É preciso reconhecer a fragilidade nos olhos daqueles que mentem”, escreveu em letras tortas, prosseguindo mais abaixo: “Não é apenas frieza, é algo mais – uma mistura de cautela e ausência de fé. Chame de descrença alheia, se quiser”. Com esse compasso encerrou no ponto final. Julia sabia que era um texto longo demais para preencher a porta do banheiro do colégio. O que queria era unir mentira à urina e destilar asco, numa juventude oca. Foi um momento triste, guiado pelos passos da desesperança; que teimam em repetir a mesma marcha diária.

Tempo
Cheguei tarde, confesso. Mas o atraso foi proposital, justamente porque não posso te alcançar; jamais.

Sentido
Nessa falsa cegueira, acaricio a nudez fria diante de mim. Um par de olhos murchos, vacilando o reflexo no espelho; um retrato semi-amarelado, sem reparo e sem moldura; que mesmo calado acusa que estou envelhecendo.

Pensamento
Aqui, sentindo nos pés o toque da terra úmida, sei que em instantes vou despertar de um sonho desprovido de sensação. Uma relação de imagens sem foco, incertas. Assim vou descrevê-las, de um jeito confuso, até perdê-las na dúvida da lembrança.

Chance
Lembro dessa manhã pálida de agosto, em que lhe perdi num sonho. Pareceu ser para sempre. Mas você voltou e, mesmo aqui, na outra metade da cama, não consigo te alcançar. 

Beatitude
Tateio o amanhã consciente que irei até onde posso alcançar, porque meus olhos ainda não viram o bastante. Porque eu ainda não sonhei o bastante.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O gosto de setembro

Gosto de setembro porque ele trás brisa terna, mas este soa especial. Neste setembro, meu pai completaria 44 anos. Não vi seus primeiros fios de cabelo branco, pois ele morreu jovem, aos 27. Quando penso nele, no seu breve sopro de vida, sei que não posso perder a fé no agora, tampouco no amanhã. Se isso acontecer serei um amontoado de nada. E na incessante pergunta ao Tempo, sobre como vamos terminar essa estrada, entre devaneios e “por quês” a resposta não tem censura. Ela vem, certeira e ainda assim nula, tirando dos olhos o brilho do “talvez”. Mas não me atenho a ela; ainda estou aqui e a ideia do eterno retorno me permite tentar, arriscar incontáveis “talvez”. Pois bem, se as coisas realmente pertencem a um ciclo vicioso de repetições disfarçadas, também são eterna renovação: se posso tentar uma, duas, três vezes, devo buscar o acerto, um novo aprendizado. Recomeçar! Seguindo a rota do acerto, um dia lhe alcanço numa esquina qualquer. Mas não estarei livre dessa busca, pois a medida que pego um aprendizado com os dedos, seguro firme na palma da mão, quero outro e mais um. Eis, finalmente, a morada da beatitude dos dias, a manivela que impulsiona a vida. Enquanto o pássaro negro de Poe não vier me buscar, posso seguir a diante, semeando e colhendo o melhor. Pois sou, e não há quem discorde, como o pássaro sublime de Quintana, que não anula a passagem pela vida, pois tem pra si um pincel, um céu azul; mesmo em dias chuvosos. Há muito tempo uso essa significação para ilustrar a capacidade de cada um em enxergar o melhor, de pincelar qualquer paisagem; mesmo que esse Melhor esteja acuado, enfraquecido pela maledicência alheia. Basta aceitar que diante do maldizer, o mais forte vem sozinho: o riso. Tentar mantê-lo no rosto é acariciar a dor da perda. É preciso força e coragem, somadas a audácia do “talvez”, para trajar essa leveza anunciada.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quatro coisas e um adeus

Ele partiu. Você se entregou inteira.

Feito a maré que vem num ritmo macio e ainda assim arrasa o que estiver na costa. Maciez e cautela, na verdade, abrigam intensidade. Foi ausência de maturidade. Da parte dele. De ambas as partes.

Vou dizer que vai passar, aconselhar um bom uísque. Afinal, ele cura tudo, mesmo que num prazo bem curto. Mas, infelizmente, ainda não ensinaram o amigo de Bukowski a preencher vazios.

Você vai rir, vai chorar, vai sorrir inquieta, trajando uma alegria vazia. Talvez passe amanhã, semana que vem, ano que vem. Mas vai passar. Feito um pássaro distante, que existe somente quando a ausência se faz presente diante dos olhos.

Fernando Sabino ensina que de tudo restam três coisas. Eu acrescento uma. Sendo assim, de tudo ficaram quatro coisas: um all star esquecido, um fone de ouvido defeituoso, uma insana fome de silêncio e uma doce inspiração súbita.

E o melhor da solidão, mesmo que breve, é justamente isso: fome de silêncio e inspiração súbita.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Brisa leve

Para saudar a existência

O peito trajou-se de rubor

Atento a razão alheia


Diante do espelho:

“É apenas dor.

É só dor”.

Consentida.


Nessa inquietação rotineira

O peito pode trajar-se do amor,

Que cada degrau norteia.


Assim como a incerteza

emudece toda razão,

a tormenta pode ser brisa leve.

E plena.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fios brancos e adeus


Difícil ter um começo, meio e fim sem correr o risco de ficar preso pelo pescoço em um deles. É, ficar ali, inerte, esperando a hora de seguir em frente. Duas semanas sem fumar, ainda é início ou já é metade? Sinto beirar o final. Meu dedo indicador da mão direita perdeu um pouco do tom amarelado e sujo, causado pelos filtros diários. A tosse aparece bem menos; e ainda assim quando surge, vem furtiva, quase sem som. Até me sinto sozinho.

Lembro de meu avô sentado à beira do fogão a lenha, fumando paiero, falando do seu tempo de pracinha na guerra e venerando Getúlio. Sinto não ter dividido um desses momentos com ele enquanto homem feito, sem ter joelhos de menino, nem olhos de curiosidade infinita. Entre uma pitada ou outra, sei que defenderia Che enquanto ele, pigarreando, se perderia em seu labirinto de memórias.

Tudo mentira, não conheci meu avô. Mas invento lembranças assim, para espantar o vazio.

A primeira vez que tentei largar o cigarro foi quando Alice ameaçou ir embora por causa do “cheiro forte de Carlton”. Por ela perdi o vício, a fome, o chão, o viço. Alice não gostava na mistura agridoce de bala de menta e tabaco. Foram meses dividindo comigo um apartamento de quarto e cozinha; às vezes me pergunto se não foram anos. Mas um dia Alice partiu, deixando no ar vazio o cheiro doce de lavanda barata - odor que não durou muito, pois na mesma hora rumei a mercearia, voltei segurando dois maços de cigarro barato.

Respiro pausadamente, enquanto trago um olhar caído. É de tristeza. Nessas últimas semanas ando me sentindo sozinho – sempre estive sozinho, mas agora sinto. Por isso me perco nessas histórias infundadas – imagens que surgem e ganham narração – sem saber se realmente aconteceram ou se as pintei na minha imaginação grisália, que ainda teima em pincelar vagas lembranças.

Sempre sutil. O cigarro era alento, uma boa companhia ao parar na janela para observar o orvalho em cima dos bancos da praça. A tosse inundava a casa de presença, sem transbordar o som vazio nem abafar o Roberto Carlos na vitrola.

Aqui, com as mãos vazias, admito que nunca achei que poderia mudar o mundo depois dos 30, quiçá depois dos 70. Por isso me conformei com a ideia de ir para o asilo, deixar esse apartamento antigo, a sacada de onde vi os prédios maiores e modernos nascerem, tomando conta da quadra e apagando o calor do verde.

Mas ainda tenho dois dias. O suficiente para descer rumo a mercearia, que há muitos anos deu lugar a um mercadão – quero sentir o gosto torpe do meu bom e velho amigo antes de partir. Aprendi que cigarros são bons companheiros em despedidas. Foi por isso que me viciei: cultivei e inventei despedidas, durante toda a vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Janela da Alma: a superação em película


Ao produzir o documentário Janela da Alma (2001), os cineastas João Jardim e Walter Carvalho retrataram em película várias visões de um mesmo mundo. Mas, sobretudo, a produção mostra a “superação” como premissa. Em trabalhos anteriores, para a TV ou para o cinema, ambos lançaram a garra de seus personagens diante dos nossos olhos – como a minissérie Agosto, produzida por João Carvalho e o longa-metragem Central do Brasil, do cineasta Walter Carvalho, que também foi responsável por filmes biográficos de figuras como Glauber Rocha e Cazuza. Em Janela da Alma, a palavra superação aparece intensa nos 19 depoimentos que compõem a produção. Durante uma hora e treze minutos, conhecemos histórias e passeamos pelo cotidiano de pessoas de diferentes nacionalidades e profissões, que têm em comum a deficiência visual – compartilhada em diferentes níveis.

Nos primeiros minutos do filme, presenciamos José Saramago norteando o que veremos a seguir. O escritor português defende que temos a visão limitada, independente de termos ou não um problema de visão, mas a ausência de clareza ao vermos o mundo é inerente a todo ser humano. “E para tornar isso claro, eu digo que se o Romeu, da história, tivesse os olhos de um falcão, provavelmente não se apaixonaria por Julieta. Porque os olhos dele veriam uma pele que não seria agradável de ver. Porque a qualidade visual do falcão, cujos olhos Romeu teria, não mostraria a pele humana tal como nós a vemos”, exemplifica o autor de “Ensaio sobre a cegueira”, que marcou a literatura mundial enfrentando as limitações de sua avançada miopia.

Mas a superficialidade ao enxergar o mundo daqueles que têm a visão naturalmente sã, embora nasça com o indivíduo, pode adaptar-se e romper limites ao se deparar com a cegueira total ou parcial. Nesses casos a visão, antes frívola, é aguçada e transmitida, de certa forma, a outros sentidos. Isso é enfatizado pelos depoimentos restantes, especialmente por Arnaldo Godoy, vereador de Belo Horizonte, que perdeu a visão na adolescência e desde então leva uma vida normal, relacionando-se e, inclusive, orientando-se bravamente no trânsito: “Eu faço um mapa na cabeça para me guiar. Fico ligado em outros referenciais, subidas, curvas, viradas, barulhos da rua”. A naturalidade com que Arnaldo conduz sua rotina é confirmada no depoimento de uma de suas filhas.

A deficiência visual pode causar uma “lesão interior” e, principalmente, resultar um trauma capaz de perseguir alguém feito sombra durante anos. Ao mesmo tempo em que traz À tona essa cruel realidade, a cineasta finlandesa Margot Remetem, revela que usou a arte como refúgio e passou a produzir animações para conscientizar as pessoas sobre os danos do preconceito.

Janela da Alma é um filme que sensibiliza e surpreende, como quando o fotógrafo esloveno Elgin Bancar mostra que a cegueira não anula a capacidade de fotografar. “Trata-se, então, de uma fotografia do invisível. Às vezes, percebo por mim mesmo, ou escuto e oriento a máquina em direção à voz”, conta o fotógrafo, que se intitula como “Narciso, sem o espelho”.

Concluindo, a principal reflexão do documentário é oferecida pelo músico brasileiro Hermeto Pascoal. Quando perguntado se já sentiu falta de ter uma visão normal, Hermeto reforçou o ensinamento presente do decorrer do documentário, alegando que “a visão dos olhos atrapalha a visão interior. Tem tanta coisa ruim que atrapalha a visão certa”. Dessa forma, Janela da Alma nos ensina que a “visão interior” é o que alimenta a superação, vence limitações oriundas da cegueira e, sobretudo, é capaz de guiar até mesmo olhos que permanecem fechados por opção.


Assista o documentário na íntegra aqui.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Tristessa: o chuviscar que perturba a calma

Tristessa é para Kerouac o mesmo que Cass é para Bukowski: a mulher mais linda da... Cidade do México, uma paixão incerta, nonsense e inacessível. Em Tristessa (1960), Jack Kerouac compartilhou memórias biográficas, escreveu um livro poético e ao mesmo tempo doloroso. Não que seus livros anteriores não teçam poesia, mas neste livro fininho, a poesia consegue vencer a dor que Jack, o protagonista-autor, sente por amar Tristessa sem poder tocá-la. Mas, como sempre, a poesia de Kerouac não é gratuita; ela aparece furtiva, escolhe a dedo os olhos e o espírito de quem a lê.

O livro fascina. Contudo, inicia numa narrativa arrastada que, repentinamente, torna-se febril e, no lugar da monotonia, dá lugar a uma bela história – pois bem, estamos falando de Kerouac, capaz de fazer poesia macia num livro extremamente pesado, desse jeito: “suave é o chuviscar que perturbou minha calma”.

Diferente de On The Road (1957) e Os Vagabundos Iluminados (1958) – em que Kerouac retrata histórias simples, com caronas e mantras – em Tristessa, Kerouac se autobiografa de forma cruel e, ao descrever o mundo de Tristessa, nos leva aos becos da Cidade do México, narrando a rotina sem norte de uma viciada e seus amigos, na saga contínua para conseguir dinheiro e droga.

Devemos muito a Esperanza, que deu vida e inspiração a personagem central deste livro – uma prostituta mexicana, dependente de morfina, amada por Jack pelo seu jeito simples e sua fé na vida: “Tristessa é uma viciada e lida com isso magra e despreocupada, enquanto uma americana seria melancólica”, descreve o autor.

Antes de dizer adeus a esse livro, difícil não associar mais uma vez Cass a Tristessa, Bukowski a Kerouac – não estou incluindo Bukowski à geração beat, mas é inegável a semelhança entre as duas personagens, em personalidade e beleza. Quero voltar à mesa de bar, quando Cass espeta o nariz com um grampo e ironiza perguntando se ainda está bonita; nesse instante, sentimos a mesma aflição e dúvida despertada no momento em que Tristessa cai e bate a cabeça com força no chão. Pois bem, ai descobrimos que também as amamos!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Peixes e pássaros

O nascimento e o nome não virão na primeira linha. O ponto de partida deve ser uma lembrança; a primeira da infância, ainda nítida. Aos quatro anos temia a chuva. Achava que os pingos da chuva se transformavam em peixes quando caiam nas poças d’água – o pingo vinha do céu como uma pedra lançada, encontrava a água morna e, furtivamente, a deixava em pura agitação. Ainda hoje, essa lembrança desperta nos dias chuvosos, mas não temo, pelo contrário – ela emudece raios, pinta de azul o céu que do outro lado da janela insiste em trajar cinza. Essa lembrança quem me deu foi meu pai.


Pelo o que me consta, a vida começou no dia 19 de dezembro de 1989. No mesmo dia e mês, em 1915, nascia Edith Piaf, o pássaro francês. Não, eu não canto (sóbria), mas foi com mulheres como Edith que aprendi que a música – assim como a literatura – é capaz de eternizar histórias e servir, principalmente, como ferramenta de luta; seja em revoluções ou pela simples sobrevivência diária.


O tempo passou traçando datas, trazendo nomes, rostos, anos...


Folheando um livro, há alguns meses li a seguinte frase: “Você é muito medroso e com medo ninguém consegue escrever”. Mais uma vez Clarice Lispector veio até mim, desta vez me mostrando que com medo ninguém é capaz de viver. Por isso deixei o medo na primeira lembrança, nos jardins da infância.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Carta a D: amor versus existencialismo


Em pouco mais de setenta páginas, conheci um homem e uma mulher, ambos na mesma história. André e Dorine, embora seguissem o existencialismo como corrente filosófica, não praticaram os mesmos preceitos dos amigos Sartre e Simone. E é assim, versando o amor e o existencialismo que André Gorz narra os anos que viveu ao lado de Dorine.

De antemão, o que torna este romance fascinante é o enredo: renomado filósofo e jornalista austríaco (radicado na França), tem o primeiro romance publicado postumamente, após suicidar-se com a esposa, Dorine, em 24 de setembro de 2007. Eis o especialista em Sartre, teórico social e político, líder em Maio de 68, autor de diversos livros na área de sociologia e filosofia, divagando abertamente sobre o amor; e este vem ácido, nem sempre macio.

Engana-se quem espera ler uma história fúnebre, sobre uma mulher que convalesce e recebe efusiva veneração. Gorz não destina uma admiração desmedida a esposa, pelo contrário, a justifica todo instante; e convence, pois ao último ponto final do livro todos se tornam fãs de Dorine. Enquanto eleva a esposa, o autor revela fraquezas, narra uma série de martírios por integrar o enlace matrimonial e, principalmente, por inferiorizar aquela que deu sentido a sua existência.

Outra surpresa. A tão mencionada doença de Dorine toma forma somente nas últimas páginas do livro, não é o foco central da história; que também aborda vários aspectos socialistas. Mas, sobretudo, Gorz buscou mostrar como um amor amadurece e é capaz de “renunciar para se concentrar no essencial”. Assim, o autor biografado não mediu esforços para prolongar a vida da esposa – expõe um amor raro, invejável.

Carta a D é a história de uma relação amorosa que ora parece surreal, ora se torna palpável; é preciso sensibilidade no instante que as palavras encontram os olhos e, sobretudo, chegam ao coração. É um romance de um casal, como tantos outros, que enfrentou dificuldades financeiras, emocionais, ideológicas e até driblou a morte para permanecer juntos. O suicídio não foi uma atitude egoísta de quem temia seguir o carro fúnebre da esposa. Os dois escolheram morrer esperançosos, certamente de mãos dadas, crentes que adiante haveria um novo amanhecer.

terça-feira, 15 de março de 2011

Quiçá

Às vezes ele passa rápido pela cidade. Me abraça forte, fala do meu perfume, pergunta como estou. Silencia – deixa que eu acaricie seu rosto, o beije macio nos lábios. Depois segue lacônico pela estrada, sempre com as mãos vazias, sem bagagem.

Quiçá pudesse levar consigo minha saudade.

Quiçá a estrada travessa o trouxesse todos os dias para mim.